A política e a inflação


Por Adriano Silva.


A inflação voltou à bola da vez, levando incerteza para a população, especialmente aqueles com menor poder aquisitivo. A alta de preços se manifesta em maiores custos dos alimentos, energia, gasolina e transporte, pressionando a renda e diminuindo o poder de compra. O roteiro dessa história já é conhecido: aumento da desigualdade e uma crise ainda maior, que já é grave desde o início da pandemia.


Já rompemos faz tempo as metas inflacionárias e o espaço para ajustes fica cada vez menor. Mas, apesar disso, esse tema parece distante em meio a tantos acontecimentos, como se vê nos movimentos da bolsa de valores, ou na pauta da opinião pública. Temos com o que nos preocupar, afinal?


Não é de hoje que a inflação está em nossa memória. O Plano Real amenizou seus graves efeitos das décadas de 1980 e 1990 e, até idos dos anos 2000, parecíamos navegar em mares menos revoltosos. Em 2010, a então presidente Dilma Rousseff disse que "um pouco de inflação não faz mal". Houve menor austeridade nessa área até seu impeachment — e a realização de micro reformas no governo Michel Temer que controlaram o quadro.


Agora, nos vemos novamente às voltas com o dragão ameaçando alçar voo. Vale ressaltar que a pandemia gerou pressão inflacionária em todo o mundo, devido ao crescimento dos gastos públicos e efeitos na cadeia de suprimentos. Mas cada país tem suas particularidades e, aqui, temos um cenário sui generis.


Fruto de descontrole econômico? É resultado de uma soma de fatores, mas que tem um grande catalisador: o cenário político. As confrontações diárias tornam o ambiente inóspito para investimentos, gerando incertezas para empresas e famílias. Enquanto perde-se tempo com a polêmica do dia, o país aguarda ansioso um mínimo de paz para voltar à normalidade.


Subvertendo a frase cunhada pelo marqueteiro James Carville, hoje o que alimenta nosso dragão "é a política, estúpido!". Somente com a pacificação é que poderemos focar nas soluções contra as turbulências na economia e nas instituições. É hora de acalmar os ânimos antes que seja tarde — para o controle da inflação e todas as outras crises que vivemos.


Adriano é administrador e sócio-diretor de Gestão Empresarial, na Biolchi Empresarial


Texto originalmente publicado no Jornal O Pioneiro - Caxias do Sul (06/10/2021).