Aprenda a reconhecer os sinais da crise em sua empresa

O sucesso de uma recuperação depende do momento em que ela será apresentada, o que significa detectar os problemas a tempo de resolvê-los. Perceber os sintomas e tratar a doença é o segredo para o êxito do processo.


Mesmo com a recente queda no número de pedidos de Recuperação Judicial constatada no primeiro trimestre de 2017, em comparação ao mesmo período de 2016, o indicador Serasa Expirian de Falência e Recuperação continua refletindo os efeitos da recessão da economia brasileira e dos altos juros praticados no país. Nos primeiros três meses do ano, 322 empresas ingressaram com o processo, mas são poucas as empresas que terminam o prazo de dois anos da recuperação e voltar a funcionar normalmente.


Segundo a advogada especialista crise empresarial da Biolchi Consultoria Jurídica, Juliana Biolchi, "só vamos conseguir aumentar o índice de 6% de sucesso nesse tipo de processo no Brasil se os gestores conseguirem perceber os sinais de que estão em crise e reverter o processo. É preciso ação".

Os sintomas de que algo está errado com a saúde da empresa orientam ações preventivas e corretivas, como o processo de elisão fiscal, o corte de gastos ou ajustes operacionais e, mesmo, administrativos. Se as medidas de reestruturação são tomadas com precisão, até mesmo a recuperação judicial pode ser evitada. Por isso, é preciso estar atento e não ter medo de buscar ajuda.

Segundo Juliana, entre os sinais de alerta estão a ocorrência de reiterado prejuízo operacional, a tendência de queda no lucro, o aumento das dívidas bancárias, a acumulação de passivos tributários e até mesmo o atraso de pagamentos a fornecedores e funcionários. Essas situações apontam que algo precisa ser feito com urgência.

1. Tendência de queda no lucro e prejuízo operacional

A saúde da empresa se mede, em parte, pelos resultados que ela produz. Quando eles são positivos, diz-se que ela dá lucro. O lucro operacional é aquele gerado pela operação (atuação da empresa, seu objeto social), descontando-se as despesas administrativas, comerciais e operacionais. Quando esta conta entra no vermelho, o que se tem é prejuízo operacional.

Juliana é taxativa quando o assunto é prejuízo operacional: "Um sintoma clássico de que a empresa está entrando em uma espiral perigosa, que normalmente é fruto de uma situação anormal e evidencia a necessidade de promover mudanças de rumo". Quando o resultado negativo começa a se acumular, o empresário precisa alterar a estrutura da empresa, realinhando-a.

Mas não basta ter olhos para o que já aconteceu. É preciso antever a realidade. A especialista explica que é comum pequenas e médias empresas (e, em alguns casos, até grandes corporações) aferirem estes resultados apenas quando eles já aconteceram (passado). Pelo fluxo de caixa realizado. Mas, apenas o fluxo de caixa projetado (o futuro) permite analisar a tendência de curto e médio prazo, o que também precisa ser constantemente monitorado. “Se a empresa não sabe o que vai acontecer com ela nos próximos 12 meses, quando ela se dá conta de que o caixa secou, talvez seja tarde demais para agir”, pondera.

2. Aumento no endividamento bancário

Os principais credores, na maioria dos processos de recuperação judicial, são os bancos, o que torna o endividamento bancário outro sinal de que uma crise está instalada. Juliana explica que "o problema não é tomar empréstimo bancário, mas usar recursos caros para sanar problemas como a queda no lucro ou, mesmo, para sustentar a operação empresarial". Segundo ela, buscar ajuda no mercado financeiro para cobrir ou compensar resultados negativos só aumenta o endividamento e o custo da empresa. Ela alerta, ainda, que "as garantias dadas aos bancos e o comprometimento da capacidade de pagamento podem levar a uma situação insustentável, um círculo vicioso que precisa ser interrompido", adverte.

3. Acúmulo de passivos tributários

Nos últimos anos, o fortalecimento da legislação tributária e, principalmente, dos mecanismos de controle da Receita Federal, vem inviabilizando uma prática até então comum para empresas em crise, de deixar acumular passivos tributários. Os custos de financiamento dessas dívidas deixaram de ser baratos e a inadimplência fiscal tem apresentado impactos cada vez mais nocivos para a saúde financeira das organizações e chega a ser considerada suicídio empresarial por especialistas no assunto.

De acordo com Juliana Biolchi, "em situação normal, uma empresa deve ter condições de arcar com os custos tributários de sua operação e se isso não é possível, estamos diante de outro sintoma de que uma crise precisa ser devidamente diagnosticada e combatida", explica. A inadimplência está, muitas vezes, ligada à tendência de queda no lucro e o prejuízo operacional e ao aumento do endividamento bancário: quando a fonte seca e os bancos já não oferecem mais crédito, o empresário passa a buscar “financiamento” na inadimplência fiscal.

4. Atraso no pagamento de fornecedores e funcionários

Outro perigoso sinal de alerta para as finanças corporativas são os atrasos com pagamentos a fornecedores ou funcionários. Segundo Juliana, no caso de atraso nos salários, “o empresário vai se deparar com dois problemas principais, o primeiro é a queda na produtividade, fruto do descontentamento dos colaboradores e o segundo é a iminente responsabilização jurídica na esfera trabalhista, que gera custos e multas”. No caso de atrasos a fornecedores, a produção pode ser prejudicada com interrupções no fornecimento de matéria-prima e o custo operacional encarece com a quebra de contratos.

Quando a empresa chega ao ponto de atrasar com fornecedores e funcionários é porque, na maioria dos casos, ela já andou pelas situações anteriores. Não agiu a tempo para reverter o prejuízo operacional, que se acumulou ao longo do tempo, os bancos já não emprestam mais dinheiro e deixar de pagar obrigações tributárias já não é mais suficiente para vencer as despesas do dia a dia.


Importância do diagnóstico

A Lei de Recuperação de Empresas foi pensada para oferecer instrumentos adequados a uma escala de gravidade da crise da empresa. Da moderada ou grave (recuperação extrajudicial), passando pela gravíssima (recuperação judicial), chegando à irreversível (falência). Quanto mais sintomas uma empresa tem, mais grave é a doença. Por isso, é de extrema importância trabalhar no momento certo e acender o alerta vermelho quando alguma das situações apontadas acontece. Buscar ajuda pode ser uma questãode vida ou morte.




Tags: análise dicas crise empresarial recuperação sinais identificar sinais

VOLTAR
  • Facebook
  • Telegram