Os dois lados do agricultor empresário

Imagine uma plantação de soja: à primeira vista, o que aparece no campo são apenas as folhas e os talos. Debaixo da terra, no entanto, está a raiz, que dá a sustentação à planta. São duas partes que se complementam, cada uma com a sua função. Revelam duas facetas de uma mesma realidade.


Utilizo essa alegoria muito conhecida dos agricultores para ilustrar um movimento crescente no setor: produtores rurais que adotam o modelo de pessoa jurídica, e não mais de pessoa física, para realizar suas atividades – muitos pensando na possibilidade de pedirem a proteção legal da recuperação judicial. Trata-se de uma opção para quem busca determinados benefícios e incentivos, além da modernização dos negócios.


Pois nessa escolha, assim como em uma plantação, há outro lado que pode ficar escondido e passar despercebido. Por mais que o “agricultor empresário” possua diversos bônus, é preciso ficar atento também aos ônus desse pacote. Lidar com toda a burocracia contábil e financeira, além de cumprir com as obrigações acessórias e pagar impostos específicos são alguns deles.


As novas diretrizes econômicas estão forçando os agricultores a repensar seu negócio como um todo. A integração do agro brasileiro nas cadeias globais e a redução da taxa Selic abrem um leque de opções para a busca de novas oportunidades de produtos e serviços financeiros. A diminuição da presença do Estado e a falta de oferta de juros subsidiados pelo governo federal requerem novas competências por parte dos donos de negócios agrícolas.


Historicamente, a produção rural brasileira foi trabalhada em um ambiente de considerável proteção estatal. O setor quase sempre contou com juros subsidiados, securitização de dívidas em problemas climáticos e uma série de políticas. Esse cenário trouxe diversas conquistas e contribuiu para que o agro nacional crescesse e se tornasse um campeão mundial.


Pois todos os sinais indicam que esse contexto está mudando. Seja pelos rumos do governo federal, seja pela modernização do mercado, há uma tendência de que os negócios rurais sejam cada vez mais vistos sob a ótica empresarial. E os próprios produtores desejam isso. O que eles precisam estar cientes é de que há consequências para essa escolha. Com responsabilidade, gestão de qualidade e planejamento tributário, todos têm a ganhar. E o agronegócio brasileiro estará pronto para crescer ainda mais neste cenário competitivo e globalizado.


Por Juliana Biolchi – Advogada e sócia do escritório Biolchi Empresarial

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