Por que o número de recuperações judiciais não cresceu na crise (até agora)?


Segundo especialista em revitalização de empresas, resultado de pesquisa do Serasa/Experian reflete que empresariado está disposto a negociar


A crise econômica provocada pela pandemia começou a dar as caras assim que as primeiras medidas de isolamento social foram tomadas. O comércio fechou e as fábricas pararam. O efeito em cadeia gerou desemprego, escassez de insumos e mudanças de comportamento que colocaram muitas empresas em xeque. O cenário parecia claro: uma onda de pedidos de recuperações judiciais viria como consequência.


Contrariando as previsões, em 2020, isso não aconteceu. Segundo dados divulgados pelo Serasa/Experian, de janeiro a novembro do ano passado, foram 1.106 pedidos de recuperações judiciais. Isso representa uma queda de 12,8% quando comparado aos 1.268 registrados no mesmo período do ano passado. Considerando apenas o mês de novembro, o número atingiu o menor patamar em sete anos. Em 2013, foram requeridos 51 pedidos. Em 2020, foram 52. É quase a metade do registrado no mês imediatamente anterior: queda de 47,5% na comparação com outubro, quando foram 99 pedidos.


"Em parte, isso se explica pela disponibilidade dos bancos e fornecedores em postergar contratos, pelas medidas do governo para evitar demissões e, em especial, pelo corona voucher — que injetou bilhões na economia", observa Juliana Biolchi, sócia-diretora da Biolchi Empresarial e especialista em revitalização de empresas.


A recente aprovação das mudanças na Lei de Recuperação de Empresas (11.101/05) também contribuiu para esse contexto. A análise da Serasa/Experian cita que “muitas pessoas jurídicas estão aguardando uma definição legal para seguir com as requisições”. Na avaliação de Juliana, que é filha do relator da lei, o ex-deputado federal Osvaldo Biolchi, essas mudanças também criam alternativas. “Abrem-se oportunidades para a negociação extrajudicial entre credores e devedores — evitando o caminho lento e oneroso da Justiça", acrescentou.


Expectativa pela vacina

Ainda de acordo com a pesquisa do Serasa/Experian, o setor de serviços continua acumulando o maior volume de pedidos, com 25 feitos em novembro. Em seguida, aparecem o comércio (17) e a indústria (6). Ao contrário do mês anterior, todos os segmentos apresentaram queda na análise anual.


"Só a chegada concreta da vacina pode acabar com as incertezas da economia, mas muitas empresas não vão conseguir esperar. Algumas terão de se reestruturar na virada do ano. Caso contrário, fecharão as portas. E, com a aprovação da nova Lei de Recuperação de Empresas pelo Senado, a temporada de negociações está reaberta. Quem não agir rápido, encontrará credores cada vez mais retraídos, em uma economia desidratada pelo fim dos auxílios. Postergar decisões difíceis nunca foi tão arriscado", conclui Juliana Biolchi.


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